O que é o canto gregoriano?

O canto gregoriano é como a Palavra sagrada deve ser pronunciada ao interno de uma liturgia romana. É o Verbo de Deus que se fez som. Verbum Dei sonus factum est.
Artigos, Canto Gregoriano

Por André Gaby

Digitei essa pergunta no google, e vejam só a minha surpresa: a resposta ali presente foi extraída do site UOL. A definição que apareceu foi a seguinte: Canto Gregoriano é um tipo de canto litúrgico monofônico, realizado em uníssono por um coro, geralmente praticado por monges, acompanhando sua melodia as palavras bíblicas. Abri o link e continuei lendo. Queria procurar mais algumas desinformações. Em tempos de fake news, nenhum assunto está ileso, muito menos o canto gregoriano. Menos ainda a fonte, mesmo que seja um grande site de notícias.

O artigo faz parte daquela seção UOL educador. Bem, para o meu trabalho, eles contribuíram para a deseducação, com um texto reducionista e cheio de lugares comuns, detalhes que eu passo grande parte do meu tempo tentando esclarecer, desfazendo os mitos. Mas é compreensível, o autor é historiador, não é músico especialista no assunto. Para um historiador, até que o texto está razoável. O que não compreendo é porque o UOL não chama alguém que entenda mais do tema. Mas deixemos essas elocubrações sobre a política de conteúdo do UOL e passemos à análise do texto e esclarecimento do que é de fato o canto gregoriano.

O canto gregoriano é um tipo de canto litúrgico... Bem, comecemos daqui.

Se partirmos da comparação entre religiões diferentes, a palavra liturgia não é comumente usada para outras religiões a não ser o cristianismo. Os estudiosos de cantos religiosos os têm chamado de cantos rituais. Então se a definição era ampla, tentando descrever um canto de uso religioso espiritual e ritualístico, a palavra “litúrgico” talvez não dê conta. Se um crente de qualquer outra fé desconhece o uso dessa palavra no cristianismo, poderia ir para o seu sentido originário – serviço público – e talvez entender que qualquer outro tipo de cerimônia pública civil tenha uma liturgia, e portanto, um canto litúrgico. Nesses termos um hino nacional pode ser considerado um “canto litúrgico”em uma cerimônia (serviço) público civil.

Por outro lado, se a intenção da definição era – desde o início – inserir o canto exclusivamente no processo cultual cristão, temos um problema que eu considero maior. Veja, não é um grande problema que um muçulmano, um judeu, um protestante, um praticante de religiões afro, entendam o canto gregoriano como um canto “litúrgico”, ou seja, cerimonial. Um ateu, para mim, poderia comparar esse repertório tranquilamente aos hinos da república, bandeira ou bella ciao. Mas um católico achar que o canto gregoriano é somente “um tipo” de canto litúrgico, entendamos, é grave. Ter essa opinião é acreditar que ele possa ser escanteado e substituído por outros tipos, sem qualquer justificativa. Não que não possa ser substituído. É possível. O que não é possível é acreditar que o canto gregoriano nos tempos atuais é só “um reserva já quarentão”, que vai ao jogo só para dar apoio moral para o time.

Os nossos irmãos que cismaram também me parecem não ter um “canto litúrgico”, ainda que eles chamem, na maioria dos casos, suas reuniões de serviço. Não irei me deter agora a explicar porque não considero o canto assemblear congregacional um canto litúrgico. Reservo o assunto a um artigo específico, pois tomaria muito espaço aqui e não quero perder o foco. De todo modo, isso não faz o canto gregoriano ser “mais um” tipo de canto litúrgico.

Qual a gravidade, então, de dizer que o canto gregoriano é somente um tipo de canto litúrgico (leia-se católico, ou cristão, já que litúrgico não é uma boa definição para cantos religiosos em geral, como já expliquei acima) ?

A gravidade reside no fato dessa definição tornar possível você separar rito, cerimônia, ou liturgia (como quer que você chame) de sua forma de canto originária. Simplesmente porque os textos rituais pronunciados ao longo da cerimônia surgem junto com esse repertório. Você não pode separá-los, são gêmeos siameses. Nem mesmo se se você fosse o Ben Carson. Não à toa a constituição conciliar Sacrosanctum Concilium o definiu como “canto próprio da liturgia romana”, e é isso que ele é. Não é “um tipo de canto litúrgico”. Ele é “O” – com maiúsculo – canto “litúrgico” por excelência. Aliás, ele não é o canto. Ele é a própria liturgia cantada.

Realizado em uníssono…

Juan Carlos Asensio – grande gregorianista – tratando certa vez da definição de canto gregoriano, disse se arrepender em ter descrito em seu tratado o canto gregoriano como um canto monofônico. É algo a se pensar. Os primeiros códices com neumas adiastemáticos (escrita musical gregoriana sem linha) surgem mais ou menos no mesmo período do tratado musica enchiriadis (séc. IX), um tratado medieval que ensinava a construir polifonia usando as melodias gregorianas. Talvez fosse uma prática comum, improvisar polifonias simples com as melodias gregorianas, algo que talvez nunca tenha sido transcrito nos primeiros séculos de consolidação do repertório, mas que toma forma escrita a partir dos séculos XI e XII. Definitivamente, se a comunidade de Ambrósio respondia após a alternância entre homens e mulheres, cantando – todos juntos – jaculatórias curtas, , temos um primeiro testemunho de uma sonoridade que não é monódica ou monofônica. Ao menos uma heterofonia era praticada desde o século IV.

por um coro

É impressionante como a definição do UOL é um gigantesco lugar comum. Parece ter vindo de alguém que o máximo de contato com o canto gregoriano foi ir ao mosteiro de São Bento em São Paulo ou no Rio de Janeiro, ou ter assistido o filme O Nome da Rosa. Quem conhece o repertório gregoriano sabe que boa parte dele foi pensada para solistas. Eles dominaram a prática do canto litúrgico desde o início até Gregório Magno mudar a situação, proibindo os diáconos de cantarem. Ordena que subdiáconos ou outras pessoas habilitadas o fizessem. Nesse momento, no séc. VI, a schola (coro) toma força. Tudo bem, ainda não estamos no período do repertório gregoriano, mas, a marca do canto solístico continua ali, claramente presente.

geralmente praticado por monges

Ainda bem que o autor da definição colocou a palavra geralmente. Se fosse ele em alguns mosteiros ou conventos brasileiros, ou de repente, desse uma olhada na pesquisa feita pela Madre Maria do Redentor sobre a prática do gregoriano nesses lugares no Brasil, ficaria chocado. Infelizmente não é a maioria. Os monges beneditinos deram grande impulso, ajudando na difusão e consolidação do repertório, mas nem mesmo eles estão conseguindo fazê-lo ser mantido. De todo modo, o principal aqui é entender que o canto gregoriano é o canto próprio da liturgia romana e não da liturgia monástica beneditina. Isto é, não é um canto exclusivo deles. É um canto de toda Igreja Católica Apostólica Romana.

acompanhando sua melodia as palavras bíblicas

Finalmente algo que podemos concordar… em parte. Bem, sabemos que grande parte do repertório é bíblico sim, extraído especialmente do livro dos Salmos. Porém alguns textos (muito poucos) são autorais. É um dado que achei importante relatar. Sequências, antífonas marianas do ofício, hinos, orações, existem alguns gêneros dentro do repertório que não possuem textos bíblicos. Mas tais textos são os textos próprios da liturgia. Os textos oficiais. Eles que devem ser a inspiração de compositores de “outros tipos” de canto litúrgico.

Bem, quero concluir esse pequeno artigo desde já prometendo um novo que analisará o texto integral do UOL. Concluo aqui, porém, este, para que não fique muito longo e cansativo. A conclusão virá com o conceito de canto gregoriano, para que vocês não cometam gafes, dizendo imprecisões:

O Canto Gregoriano é o canto próprio da liturgia romana da Igreja Católica. É um canto que nasce da melodia que está escondida ao interno da boa pronúncia da língua latina (cantus obscurior), ensinada pelos retóricos romanos : Varrão, Quintiliano e Cícero, e que desenvolve sua melodia a partir da inserção de notas de entoação, repouso e melismas, inseridos com o intuito de pontuá-lo e de destacar certas palavras, concedendo ao texto uma chave de leitura, ou exegese, de tipo melódico. O canto gregoriano é como a Palavra sagrada deve ser pronunciada ao interno de uma liturgia romana. É o Verbo de Deus que se fez som. Verbum Dei sonus factum est.

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