O canto gregoriano: um estranho na própria casa

O título que quis dar ao meu intervento é a amarga síntese conclusiva da reflexão eclesial – seria mais correto dizer “ausente reflexão” – pós-conciliar em mérito do canto gregoriano
Canto gregoriano, Canto litúrgico, Liturgia, Magistério

Por Fulvio Rampi

O título que quis dar ao meu intervento é a amarga síntese conclusiva da reflexão eclesial – seria mais correto dizer “ausente reflexão” – pós-conciliar em mérito do canto gregoriano. Pensei muita vezes comigo mesmo que teria sido muito mais fácil falar do canto gregoriano se a “Sacrosanctum Concilium”, no famoso art. 116, tivesse se exprimido mais ou menos assim:

“A Igreja, mesmo apreciando desde sempre as altas qualidades artísticas e expressivas do canto gregoriano, não o reconhece como canto próprio da Liturgia Romana: por isso, nas ações litúrgicas, mesmo sem o excluir, não lhe seja reservado o lugar principal”.

Todos se apressariam a lhe dar uma bela medalha, apreciar seu valor musical enquanto fundamento da música ocidental; em resumo, quase todos estariam ainda hoje de acordo em o considerar uma grande figura cultural do passado, distinto testemunho da liturgia da Igreja, mas irremediavelmente superado por novas instâncias litúrgicas às quais não teria mais condições de responder em modo apropriado. No reconhecer as honras merecidas pelo serviço de tantos séculos, seria a própria Igreja a lhe conferir um novo local conveniente – mas não o mais central – na sua liturgia. Seria compreensível, mais simples, certamente mais cômodo.

As práticas litúrgico-musicais pós-conciliares, sabemos, superaram de modo amplo e profundo, na realidade, a triste fantasia do falso artigo 116 que me permiti inventar. Já nos surpreenderiam a assustadora aridez litúrgico-musical em resposta à hipotética citação sobrecitada. Mas no todo, assume conotações escandalosas – no senso etimológico – à luz do verdadeiro artigo conciliar: “A Igreja reconhece o canto gregoriano como canto próprio da Liturgia Romana: por isso, nas ações litúrgicas, em paridade de condições, que lhe reservem o lugar principal”.

A Igreja, na sabedoria da sua Tradição, nunca teve dúvidas sobre o canto gregoriano: O texto da SC não faz mais que colocar o sigilo sobre uma realidade indiscutível, em uma definição definitiva, ou seja, sobre um empenho de recompreensão sobre a qual não pode nunca vir menos. Uma recompreensão que, exatamente porque foi fundamentada sobre bases definitivas, não pode mais permitir-se perguntas equivocadas. A pergunta: “gregoriano sim ou não”? é equivocada e não exige resposta, já dada de modo definitivo pela Igreja. No artigo conciliar que citei, a Igreja, no fundo, repercute substancialmente uma obviedade: faço-vos notar que se coloca o acento sobre o fato que o canto gregoriano pertence à Liturgia da Igreja, portanto lhe é atribuída uma categoria de julgamento que transcende o puro fato artístico. A Igreja nunca se identificou a somente um tipo de obra de arte, estilo arquitetônico ou repertório musical. Ora, com o canto gregoriano, não fez uma exceção (ainda que assim pudesse parecer), no sentido que nunca julgou o gregoriano do ponto de vista artístico, mas sempre o associou intimamente ao seu verdadeiro tesouro: a Palavra de Deus. Só isso é seu, no sentido que à Igreja pertence a interpretação bíblica.

Portanto, falando de canto gregoriano, existe sobretudo uma discussão que não é tanto um dado musical, mas sim um elemento eclesial fundacional, que é precisamente a relação entre Igreja e Palavra. É sobre este conceito, funcional à compreensão do complexo fenômeno que é nomeado genericamente de canto gregoriano, que sustentaremos nossa reflexão.

Do documento conciliar emerge o convite não à remoção, mas a recompreensão do canto litúrgico e sobretudo do canto gregoriano. Isto significa promover finalmente uma nova reflexão eclesial forte não só de um seguro depósito da Tradição, mas de sempre novas aquisições provenientes de vários âmbitos de estudo e pesquisa (a paleografia e a semiologia gregoriana, a modalidade; e depois a patrística, a liturgia, a teologia, a historia da arte…) que contribuem sem preconceitos, em modo sério e não ideológico para dar corpo e concretude ao princípio vital do “Nova et vetera” (Nova e Velha), que é o fôlego da Tradição da Igreja. Continuidade e quebras não são referidas ao objeto (no caso do gregoriano) que não sejam uma renovada compreensão, a certos momentos fruto de novas modalidades de investigação, maturadas em particular no arco do último século. À luz do último Concílio, se impõe verdadeiramente um repensar do canto gregoriano – portanto, a partir disso, de toda música litúrgica – segundo uma relação complementar e não antitético entre continuidade e quebra, onde uma (a continuidade) garante a eficácia e reta intenção da outra (quebra).

A verdadeira continuidade, dada do seu ser para sempre o canto próprio da liturgia, impõe uma quebra, um superamento, a “ablatio” (extração) de práticas talvez consolidadas e de tudo que com o tempo, terminou por cobrir e ofuscar a verdadeira natureza da força expressiva. Se por continuidade se compreendesse o puro “reset” de uma prática pré-conciliar ou a defesa de compreensões ou concepções cristalizadas bem como impermeáveis a qualquer “provocação” dos muitos âmbitos acadêmicos da pesquisa musical, também a quebra seguiria a mesma lógica, limitando-se a uma oposição igual e contrária, orientada a fazer coincidir o repensar com a remoção. De fato, o debate pós-conciliar foi se tornando substancialmente raso e empobrecido de contraposições – de contornos fatalmente ideológicos – entre um gregoriano de qualquer jeito indiscutível e um gregoriano que deve ser eliminado tout-court (“e pronto”).

A pergunta mal respondida, a qual mencionamos acima, produziu vários desastres e suscitou outras perguntas falsas e não menos devastantes que envolveram conceitos altos e princípios sacrossantos entre os quais, por exemplo, a “participatio actuosa” (participação ativa da assembleia), miseravelmente reduzida a uma amarga anedota. Foi-se pouco a pouco produzida e consolidada uma situação paradoxal, a fim de que mesmo uma normal execução de uma normal antífona gregoriana, desde sempre desejável é recomendável, se tornou de uma hora para outra um perigo para a liturgia. Do dado objetivo de canto “próprio” (oficial, para que fique claro) da Igreja, a presença do gregoriano na liturgia passou a ser regulada da mais aleatória subjetividade, ou seja, da benevolência ou da aversão do celebrante, do liturgista, do pároco, do bispo da vez. O que surpreende é a desenvoltura eclesial com a qual vem normalmente acolhido e alcovitado tão grave mal-entendido. Parece-me que em nome do tão invocado “Espírito do Concílio” se tenha de fato simplesmente revirado ao avesso a “letra”. Tudo isto foi produzido a partir da pergunta equivocada.

Para retornar a fazer perguntas corretas – e, como se diz, necessárias – sobre o gregoriano e sobre toda a música litúrgica, com suas novas perspectivas, precisamos sobretudo dar um passo para trás, no sentido de tornar a reafirmar como primeira coisa, aquilo que, em verdade, é sempre dado como sabido. Na atual situação, reafirmar uma obviedade é já uma grande novidade, mas é um primeiro passo verdadeiro – ainda que triste e vergonhoso – para recuperar uma infinidade de terreno perdido.

Agora perguntemo-nos qual é esse terreno perdido, onde esteja, em substância, a motivação profunda que faz o gregoriano uma verdadeira “pérola preciosa”. Para além de simplificações mortificantes ou de preconceitos de vários tipos, andemos de uma vez ao ponto e façamos a pergunta ao mesmo tempo mais simples e mais trabalhosa: O que é o canto gregoriano? Existem vários níveis de resposta, cada um dos quais define gradualmente o percurso de conhecimento de sua verdadeira identidade.

1. A resposta mais simples está no que já dissemos até agora: o canto gregoriano é o canto próprio da liturgia da Igreja Católica. Convém ter consigo sempre este ponto de partida: a primeira qualidade do canto gregoriano é de ordem eclesial e confere a este repertório (chamemos assim) uma categoria de julgamento que transcende a pura dimensão artística e direciona à relação especial entre Igreja e Palavra de Deus. A Igreja colocou em uma relação única o canto gregoriano e a Palavra, ao ponto de identificar nele o próprio pensamento sobre aquela Palavra, a própria reflexão, a própria interpretação, a própria exegese. A Igreja nos diz, em resumo, que quando cantamos o gregoriano, expressamos precisamente o Seu pensamento sobre aqueles textos. Nos diz sobretudo isto. Não só isto, mas sobretudo, isto. Existe muito mais, entendamos, mas no entanto temos a garantia de respirar com a Igreja e de fazer-nos ensinar através da sua interpretação das Escrituras. Bastaria isto para definir o canto gregoriano como um verdadeiro símbolo da Igreja Católica.

2. Um segundo nível de resposta é este: o gregoriano é – acrescentemos algo – a versão sonora da interpretação da Palavra. Desponta o dado sonoro do gregoriano: a interpretação da Palavra se faz som, toma vida como evento musical, se faz som da Palavra. Compreendamos bem qual consequente responsabilidade vem confiada ao som, concebido essencialmente como veiculo de sentido, de significado. Eis o próximo passo: a interpretação da Palavra vira som. Então: a Igreja acolhe o som, “consagrando-lo” à parte integrante do evento litúrgico e o faz “veiculo de sentido”, ou verdadeiramente muito mais que um simples “enfeite” de um texto. Este é um momento decisivo. O texto cantado deve coincidir com o texto explicado; a explicação do texto reside naquela precisa organização de sons. O canto gregoriano torna-se então a explicação da Palavra como quer a Igreja, através de um detalhado projeto sonoro.

3. Uma resposta ainda mais completa à nossa pergunta inicial é a seguinte: o gregoriano é a contextualização litúrgica da interpretação sonora da Palavra. Significa que a Palavra não deve ser somente interpretada e cantada, mas sobretudo deve ser contextualizada: a Palavra torna-se evento litúrgico, colocando-se, por isso, no coração da experiência eclesial. Atenção: a Palavra não é colocada simplesmente no interno da liturgia, mas torna-se ela mesma liturgia. O “canto próprio da liturgia” é exatamente “liturgia própria no canto”.

Paremos um instante e olhemos o percurso que brevemente traçamos aqui. Partimos da Palavra, ou seja, de uma entrega de Deus a Igreja; um dom ou, se quisermos, um talento que não podemos soterrar, mas “comercializar”, fazer render, e finalmente devolver. A devolução é um evento sonoro que nos comunica o sentido e que eleva a liturgia. O dado musical, a componente artística é funcional, aliás, coincide com este projeto exegético. Em outras palavras, o gregoriano transmite o pensamento da Igreja sobre sobre este texto e sobretudo mostra não só como o mesmo texto foi compreendido, mas como convém celebrar-lo. Sobre este texto vem solenemente pronunciado o amém, vem a substância reconhecia da verdade.

4. A este ponto, nos ocorre acrescentar subitamente outra consideração neste outro caminho de compreensão e em resposta às perguntas iniciais: a natureza litúrgica do canto gregoriano está na sua capacidade de estruturar-se em estilos e formas precisas. Esta próxima passagem merece uma premissa, assim sintetizável: não se dá a liturgia sem forma. A liturgia é o exato contrário da improvisação. A forma não é aparência, mas, ao contrario, revela a substância, o símbolo, a prova, a garantia. Podemos até mesmo animar-nos a afirmar que, na verdade, não existem cantos gregorianos, e sim formas gregorianas próprias de cada canto. Cada forma se apresenta, ainda que em diversas variedades de movimentos melódico-rítmicos, segundo uma precisa natureza estrutural: até mesmo a forma em si – outro passo importante do nosso caminho – é intimamente associada ao momento litúrgico.

Assim se me refiro, por exemplo, a um intróito (canto de entrada), defino automaticamente o momento, a forma, o estilo, daquele canto. Defino não só a espécie, não só o canto que abre a celebração eucarística, mas subtendo que se trata de uma salmodia antifonada (forma) em estilo semiornamentado (estilo compositivo). Um intróito é isto, nasceu assim, tem essa forma, esse estilo, esta configuração: não pode ser mais que isso, ou não será um intróito. Se digo gradual, ofertório, responsório ou qualquer outra forma gregoriana, identifico sempre estruturas precisas, não composições ou cantos genéricos.

Agora me consintam um inciso pessoal sobre a situação de hoje. Pergunto-me se é legitimo e que sentido pode ter desatender sistematicamente o pressuposto, que nos foi dado pela tradição litúrgica através da antiga monodia, que regula há séculos a relação entre forma musical e momento litúrgico. Penso, por exemplo, nos cantos do “Ordinarium Missae”, em particular o Glória e o Credo que, por causa de uma já inevitável difusa e irrestrigível ânsia assemblearista, tornaram-se coisas que nunca foram, formas responsoriais. Para fazer cantar a assembleia, com a ilusão e o grave mal-entendido de promover a participação ativa, foram colocados de modo indiscriminado refrões fáceis (geralmente banais) em cada canto da celebração: O miserável resultado final é um achatamento de tudo através de improváveis formas responsoriais totalmente estranhas à natureza de cada momento litúrgico-musical desde sempre pensados pela Igreja de outro modo completamente diferente.

De volta a nós, pudemos até aqui observar como o texto, para fazer-se liturgia, precise passar por passagens obrigatórias e ordenadas. Essa é a raiz do canto litúrgico: a Igreja, com o canto gregoriano esculpiu para sempre na pedra esta necessidade; a Igreja mesma, lembre-se, não diz que precisa cantar só o gregoriano, mas através do gregoriano nos entrega para sempre uma necessidade de percurso. Devemos ser conscientes que ignorar ou negar na prática um princípio ordenador, significa contradizer de fato o pensamento da Igreja em mérito do canto litúrgico.

5. A este ponto, como se não bastasse, precisa, por assim dizer, baixar o ás (expressão de quem joga baralho). Sim, porque estou convencido que a coisa mais importante de todo esse percurso ainda não foi dita. A verdadeira força do canto gregoriano, de fato, está muito além, ou seja – do mesmo modo como acontece com a Sagrada Escritura – na visão do todo. Um canto gregoriano, mesmo que possuindo todas as características estilístico-formais, apenas relembradas, mesmo tendo sofrido esta espécie de complexo “artesanato” do qual até agora falamos, seria ainda pouca coisa se não estivesse inserido em um projeto global, de enormes dimensões, que abraça todo ano litúrgico e que se nutre de relações, alusões, indicações, retornos, em uma palavra: fórmulas. Não posso cantar o gregoriano sem saber, sem ao menos estar consciente que cada um canto é parte viva de um repertório inteiro, com o qual é posto em relação sem a qual o valor intrínseco do mesmo canto resultasse fortemente diminuído. Somente no jogo de relações, indicações, alusões mais ou menos veladas, posso colher, tanto no Grande Código da Escritura quanto nos antigos códigos litúrgico-musicais, o sentido de um episódio, de uma afirmação, de um fragmento musical mais ou menos extenso.

O gregoriano vive destas relações: a sua matriz cultural, que o coloca no tempo da tradição oral, não pode revelar-se que não seja através da prodigiosa técnica mnemônica. O gregoriano é verdadeiramente o canto da memória. Eis uma outra possível definição em resposta à nossa primeira pergunta. O inteiro repertório, o inteiro enorme projeto, assim minuciosamente pensado e construído, e confiado à memória. Não é aqui o local para uma análise do percurso histórico do gregoriano, mas deve-se ao menos recordar que os mais antigos testemunhos escritos – que remontam aos séculos X e XI – oferecem testemunho de um repertório “inconcluso” o qual é a memória a determinar as relações. Cada trecho gregoriano é um fragmento do todo, e tal fragmento se descobre funcional a um projeto exegético global. Cabe-me poder aproximar o gregoriano à imagem paulina bem notada do corpo humano, no qual nada vive por si, mas tudo está em relação.

Avançamos um pouco a frente e vislumbramos perspectivas vertiginosas na elaboração de um texto sacro. Demos uma olhada juntos do alto e vimos aquilo que pessoalmente adoro comparar a um grande catedral. O que podemos diante de uma catedral? Certamente é fundamental conhecer seus materiais, técnicas de construção, como é fundamental conhecer as características do texto no canto gregoriano, desde a sua proveniência até a sua qualidade fonética, sua pronúncia fundada no valor silábico e assim por diante. O que seria, todavia , uma catedral privada de seu projeto global, de seu valor simbólico e alusivo? O material, primeiramente bruto, e depois elaborado, é em última análise funcional uma forma criada a sua vez de proporções perfeitas e suportada por um conceito de ordem, pressuposto imprescindível também no canto gregoriano. É a ordem que cria la forma e oferece a chave de leitura de um projeto. No fundo, como não pensar na mesma Criação que, assim como emerge da narração da Gênese, se revela como resultado de um “fazer ordem” com infinita sabedoria?

O gregoriano, como disse, se apresenta diante de nós com as formas de uma catedral e está no centro da nossa cidade, da música litúrgica. É assim, objetivamente assim. A dificuldade e a complexidade de um novo início na música litúrgica não podem justificar julgamentos sumários, projetos tanto imprudentes quanto medíocres que contradizem na raiz a história da cultura eclesial; cultura que sempre foi nutrida dos melhores produtos do pensamento humano. O gregoriano, na sua qualidade notória de “voz da Igreja”, não foi ainda estudado suficientemente; a própria Igreja, declarando-o “seu”, nos assegura que ele não se exauriu suas potencialidades e que deste tesouro, que descobrimos ser o eco da Palavra de Deus, somos chamados a desenhar “coisas novas e coisas antigas”.

Se tivermos paciência e desejo sincero de nos aproximarmos e de escutá-lo, nos ensinará a quais alturas poderá conduzir esta “lectio divina” sobre a Palavra. Sim, o gregoriano é forma musical da “lectio divina” da Igreja. Como podemos de fato definir o “artesanato” do texto sagrado, do qual se falou até agora, se não aproximando as suas fases aos diversos graus da “lectio divina”, a partir da “ruminatio” para alcançar vertiginosas alturas contemplativas? Pergunto-me: Como mudariam as cotidianas reflexões sobre o canto litúrgico, se partissem de uma aproximação séria e livre ao canto gregoriano?

Só um ingênuo pode pensar que o canto sacro seja exclusivamente o canto gregoriano. Mas não se perceber ou retirar do caminho o canto gregoriano equivale a arrancar uma catedral de uma cidade e de uma diocese. Não só, equivale mais ainda a arrancar do meio o pressuposto que rende fecunda cada reflexão sobre novas propostas de música litúrgica; isto porque a Igreja, com o canto gregoriano, nos disse de uma vez por todas que a íntima natureza do canto sacro está principalmente no transformar a  Palavra de Deus em evento litúrgico. Cada outra perspectiva, ainda que legítima, é secundária. É o objetivo que foi alcançado com o gregoriano, um testemunho que está ali diante de nós.

O canto gregoriano é tudo isto, e foi capaz por fim de orientar as formas do canto popular. O imenso patrimônio do assim chamado canto gregoriano popular é em realidade um fruto maduro de um longo percurso secular que se enraiza na íntima natureza eclesial da antiga monodia litúrgica. Com os séculos se pode substituir o gregoriano, mas não se pode substituir o pensamento por trás que o determinou. Certamente o gregoriano é produto artístico filho de seu tempo, e como tal, superável, mas sem que por isso seja apagada a impressão digital indelével dada para sempre pela Igreja. Agostinho diria, em referência ao plano de Deus, “Mude o desenho, mas não o projeto”. Uma reflexão eclesial que em mérito  da música litúrgica não confronte seriamente a questão gregoriana é moeda falsa que compra mercadoria falsa.

 

Conclusão

Mas, concretamente, o que se pode fazer? O que podem fazer uma paróquia, uma catedral, uma pequena “schola cantorum” ou um grande coro? Quais são as nossas potencialidades, quais são os nossos recursos, quais são as nossas energias? Retornemos todos às nossas comunidades onde nos aguardam mil problemas concretos para administrarmos que, normalmente, tiram espaço para possíveis novas reflexões. E depois, ainda compartilhando estas observações, como as podemos encarnar em um contexto eclesial não disposto, salvo raras exceções, a levar em consideração similares perspectivas litúrgico-musicais? Temos freqüentemente um clara sensação que onde não domina a ideologia reina contudo a indiferença, de alguma maneira um mal ainda pior. Em um panorama globalmente desolador, o que fazer? Por onde começar? Que comportamento adotar?

Eis, pois existe um comportamento que me parece poder valores para todas as realidades, independentemente de suas potencialidades e situações especificas: se trata da fidelidade em confronto ao canto gregoriano. Confiar no gregoriano significa confiar sobretudo no fato de que a Igreja declarou “sua” uma coisa boa. Uma coisa boa que, como tal, está do nosso lado, existe para o nosso bem.

O primeiro passo concreto é a vontade de entrar com fidelidade por uma porta que se fez objetivamente muito estreita. Certo, o gregoriano é difícil, no presenteia emoções fáceis, não promete resultados imediatos e a baixo custo. Não se deixa conhecer ao primeiro encontro, não dá intimidade a qualquer um, e a quem o quer encontrar sugere a paciência de um encontro verdadeiro e profundo: “Vinde e Vereis”, que podemos parafrasear em “estudeis e compreendereis”. Não o julguemos fora da realidade de hoje: para quem o quer encontrar, os meios e os instrumentos existem, basta procurá-los; ele se mostra pouco a pouco e presenteia emoções que nada têm a ver com o vago senso de espiritualismo, de misticismo, ou de atmosfera rarefeita, muitas vezes associadas impropriamente ao canto gregoriano. Precisará de tempo, os resultados tardarão a chegar, por causa de uma dificuldade que, na atuação situação de difusas “suspeitas”, torna-se ainda mais cansativa.

Dito isto, porque não aceitar, na Igreja, esse desafio impossível? Ter confiança no gregoriano significa querer lhe reservar o lugar principal, antes ainda que na liturgia, em nosso coração. É o coração da Igreja que deve reconhecê-lo como dom, como graça, como seu tesouro e não como estorvo. É o olhar que deve mudar, e à Igreja é exigido muito mais que ao mundo da cultura.

Nos Conservatórios e nos ambientes musicais – isto posso testemunhar pessoalmente – o gregoriano é muito apreciado: é reconhecido como linguagem musical que deu origem à cultura musical do Ocidente. O canto gregoriano não tem dificuldade em “se afirmar” no mundo musical, sinal que ainda que do ponto de vista requintadamente artístico – que nos propusemos além de tudo a não considerar nesta reflexão – o canto próprio da liturgia romana nunca sofreu de complexo de inferioridade e sabe se fazer respeitar. Mas, repito, à Igreja – e está aí precisamente o verdadeiro problema – hoje é exigido muito mais. A Igreja não pode esconder o canto gregoriano, mas não pode nem mesmo somente apreciá-lo pelo que representou no passado: Ela é convocada sobretudo a amá-lo. A amá-lo hoje, a reencontrar hoje as verdadeiras motivações para considerá-lo novamente seu, a surpreender-se e a agradecer com alegria por tanta autêntica beleza, a reconhecê-lo novamente como forma por excelência da própria fé, e por isso a trazê-lo de volta para o centro da santa liturgia, cume e fonte da vida de Cristo.

Iniciei esta minha reflexão citando um artigo do magistério que, por sorte, não existe. Gostaria de concluir do mesmo modo, mas com uma substancial diferença. De um documento de fantasia que, mesmo fotografando uma situação real, não quereríamos jamais na realidade, passo a sugerir um outro que, ao contrário, não fotografa absolutamente a situação atual e gostaríamos ao invés de ler. Ei-lo:

“É obrigatório que cada igreja catredalícia, basílica ou santuário dotar-se de uma “schola gregoriana” estável, ainda que de poucos membros, de vozes masculinas ou femininas, em grau de executar as partes próprias de canto gregoriano ao menos nas principais solenidades e festividades do ano litúrgico. A direção da “schola gregoriana” deverá ser confiada unicamente a um regente que tenha conseguido um titulo especifico no âmbito do canto gregoriano, que os estudos mais recentes restituíram felizmente à sua integridade e pureza”.

Está última linha não é minha, mas é copiada do motu proprio de Pio X “Tra le sollecitudini” (1903). A mais de um século de distância, podemos falar de uma nova “ablatio” que, ao longo de todo o século XX, continuou a restituir uma nova integridade e nova pureza ao canto gregoriano. O desejo é que a Igreja tome consciência, finalmente, de tudo que foi feito. Com o motu proprio de Pio X fora dada a concretude para um novo percurso e uma nova estação. Agora, pelos vértices institucionais da Igreja, como para todos nós, é o tempo dos fatos.

16/01/2013, escrito para http://chiesa.espresso.repubblica.it

Disponível aqui.

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